Pimenta Alecrim Palavra - Sonia Guzzi

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domingo, 6 de maio de 2012

suspiros e recomeços


O encanto que enlaça,
na dança que abraça,
alça voo com graça,
do desejo a utopia,
o futuro e o medo,
a emoção e o enredo,
o engano e o degredo,
dor sem analgesia.

O comboio que passa
apita e a fé caça,
e a mágoa estilhaça,
A dor... desfalece,
o orgão vital sorri,
mesmo sem bisturi,
gargalha em frenesi,
e a luz reaparece.

Sonia Guzzi


terça-feira, 27 de março de 2012

A escolha


Como traidor de seu sonho, desfilava o veneno no rosto disfarçado de indiferença.
Também prometeu felicidade, na voz desfigurada de mágoa, tristeza e mistério.
E assim construiu suas manhãs, negando na emoção da primavera a pausa de um beijo
Escravo de seus pesares, sumiu, entre o mofo e as flores murchas de sua solidão.
Simplesmente vestindo o frio vento dos seus pesares.
Na emboscada...de seus próprios passos.
 
Sonia Guzzi

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dia da poesia

                                        A Ilha

Todas as ilhas do mar foram feitas pelo vento.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
 até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.



Pablo Neruda

quarta-feira, 7 de março de 2012

O tempo que vive em mim

Além da trilha do tempo, oculto nas dunas da vida, ressona o hálito do vento, na areia branca que busca o céu. 
Sutil o tempo passa!
Pranteia o bosque e o morro cai.
Se eu pudesse, esticaria os braços, além da desordem amassada de dias desbotados e sementes esquecidas.
Estancaria com meus dedos verdes, cabelos repletos de seiva, a encosta que desmaia, arrastando utopias.
Ondularia com enlevo sedutor a dança da alforria, sem prudência ou temor, e deitaria meu amor na terra doce e áspera. 
Sonharia eternamente, no quintal do céu, que um dia nós fomos promessa.

Sonia Guzzi

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um dia encantado

O sol quente correu apressado assim que abri a porta de casa. Sentou-se no meio da sala, espalhando seus dedos pelas cortinas, almofadas e ainda num arroubo de atrevimento esgueirou-se pelas cadeiras. Naquele momento era tirano absoluto. Felizmente meu bom humor riu-se daquela invasão, e preferiu buscar a bebida quentinha na cozinha, onde o aroma de ervas  já se espalhava convidando ao preparo do almoço.
Nem mesmo havia terminado de saborear o café, quando o pássaro Timóteo assoviou, bem ao lado do manjerição dependurado no parapeito da janela. Estiquei as mãos, onde ele imediatamente pulou com jeito  ressabiado e traquina. Ele realmente é muito gracioso e arteiro. Gosta de provocar.
Uma paz pulsante, como um grande respiro de Deus, abraçou o meu lar. Fiquei quieta, com receio de perder aquele momento.
No quarto dos meus filhos, os quais, hoje  adultos, independentes e moradores de outras casas, um burburinho fez-se ouvir. Eram as brincadeiras de suas infâncias. Entre palhaços, trem da alegria, brinquedo Atare, minhas crianças desfilavam seus olhinhos risonhos e joelhos ralados. No quarto do outro lado do corredor, que era onde meus pais ficavam quando nos visitavam, ouvi um leve ruído, e curiosa,  rapidamente desci os dois degraus que o separa da cozinha. Surpresa e feliz revi os meus primeiros amores,  confidenciando uma convivência de sessenta anos. Depois, na escrivaninha antiga, com perfume de meus antepassados, percebi meu marido absorto, entregue aos cuidados com a poupança desejada, que poderia custear os estudos dos nossos filhos. Revi uma jovem mãe, correndo entre o trabalho remunerado, os cuidados com o lar, a vigilância com os filhos, o medo com a doença dos pais...
Nesse dia percebi muitas coisas. Muitos abraços perdidos, carinho adiado, palavra esquecida. Mas, em meio a tudo isso, pude ver muitos corações se enroscando, vitalizando, investindo fé e compaixão, tornando muitas vezes o testemunho individual suportável e comovente.  Corações que muitas vezes se transformaram, esquecendo a própria dor, para acolher, confortar, inflar coragem.
Foi  neste pequeno núcleo, que desafiadoramente, juntos aprendemos como caminhar neste mundo, onde cada dia é um belo presente de Deus. Sabendo  que o nosso universo pessoal é repleto de possibilidades  e que em cada decisão reside uma conquista, que poderá nos esvaziar ou colorir o espírito de luz, esperança e sentido.

Sonia Guzzi


Sonia Guzzi

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Amados pés

Amados pés, caminheiros obstinados.
Sob sois amenos e ventos atrevidos,
entre estradas nuas e verdes estações,
construí calosidades neste meu tempo.
Depois, o outono soprou folhas secas,
cobrindo a relva orvalhada de esperança.
Ainda assim, pisei o desenho no céu,
busquei a estrela nos meus passos,
e a brisa soprou mais uma vez.
Amados,
nobres,
pés...

Sonia Guzzi

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Prece da moça teimosa


Senhor da chuva e do vento,
da relva, do sol e do mar,
tornai-me suave e devota,
e fugindo daquele olhar.

Se compreender que eu  mereço,
 padecer de banzo e de dor,
esquecer o meu pedido,
e deixai-me sofrer de amor.

Mas se por brandura e pena,
aprovar minha  petição,
agradeço sua bondade,
mas sou teimosa e digo não.

Sonia Guzzi